O que muda quando um banco lança uma “stablecoin”?
por Miguel Magalhães (Texto) | 4 de Fevereiro, 2026
O Bison Bank anunciou recentemente que, durante 2026, irá lançar a primeira stablecoin, o primeiro evento do género por parte de uma instituição bancária portuguesa. Ainda não tem nome, mas surge no seguimento da nova regulação europeia para criptoativos, o MiCA.
A relação entre as instituições financeiras de referência e o mundo das criptomoedas e da blockchain tem vindo a evoluir progressivamente nos últimos anos. Tem-se multiplicado, a nível mundial, o número de parcerias entre os dois lados, que têm garantido uma melhor acessibilidade a este tipo de ativos, tanto numa lógica de investimento como numa lógica de pagamentos do dia a dia.
No decorrer de 2025, organizações como o Bank of America e a Goldman Sachs anunciaram que estavam a desenvolver a sua própria stablecoin e, deste lado do Atlântico, bancos como o BBVA e o Deutsche Bank também fizeram um compromisso semelhante.
O que é uma stablecoin?
É um ativo digital concebido para manter um valor estável, geralmente indexado a uma moeda fiduciária como o Euro ou o Dólar.
Porque é que isto está a acontecer?
Na maior parte dos mercados, tem existido uma vontade de simplificar a regulação de criptoativos e integrá-los nos sistemas financeiros já existentes, fazendo os ajustes necessários. Na Europa, o nome desta legislação é MiCA (Markets in Crypto-Assets), que trouxe uma maior clareza jurídica a investidores e reguladores.
“Hoje, quando falamos em stablecoins, principalmente em stablecoins reguladas, não podemos compará-las com as de anos atrás, que tinham pouco pendor regulatório por trás”, explica António Henriques, CEO do Bison Bank. Sob o MiCA, apenas instituições financeiras ou de moeda eletrónica podem emitir estas moedas na UE.
Um dos casos mais conhecidos é a stablecoin Tether, que atualmente é um dos ativos mais transacionados no mercado de criptomoedas. A diferença é que é gerida por uma empresa tecnológica e não por um banco.
O CEO descreve o novo panorama como “encorajador” e “acelerador”, tendo levado à integração da Bison Digital Assets (a subsidiária para criptoativos) na operação global do banco. “A partir do momento em que a fusão seja aprovada, os clientes deixam de precisar de contas separadas para gerir euros e criptoativos. O processo vai ser melhor percebido e [os clientes] vão ficar ainda mais com a convicção de que têm uma conta no seu Banco de referência”, afirma o CEO.

O novo roadmap do Bison Bank
Estas inovações surgem num cenário de solidez financeira para o banco. Em 2024, atingiu um lucro de 2,5 milhões de euros, um salto significativo face aos 0,6 milhões de 2023, e a Bison Digital Assets registou resultados positivos, tendo transacionado um volume de 130 milhões de euros.
O use case da stablecoin no contexto do banco é cirúrgico: pagamentos transfronteiriços.
Hoje em dia, já é fácil transferir euros entre vários bancos nacionais e europeus, mas continua a ser desafiante, por exemplo, transferir dólares para uma conta num banco português. “O cidadão comum não sabe isto, mas esta transferência, mesmo que seja entre bancos nacionais, vai ter que ir aos Estados Unidos até chegar a um deles”, explica o CEO do Bison Bank.
A stablecoin do Bison resolverá este problema ao circular exclusivamente entre institucionais (bancos e empresas licenciadas), tornando o processo instantâneo. As divisas internacionais podem ser indexadas à stablecoin, facilitando o processo de transação. Este passo ganha maior importância tendo em conta o cliente-tipo do Bison Bank.
“A maioria, 80% dos clientes do Bison Bank, são internacionais. Portanto, é efetivamente um problema que eu quero ajudar a resolver. Nós entendemos bem o conceito de stablecoin, entendemos os vários use cases, mas efetivamente também queremos agitar um pouco o sistema financeiro para mostrar que se pode fazer um pouco melhor e dar experiências aos nossos clientes um bocadinho melhores do que aquelas que nós damos hoje”, explica.
A médio e longo prazo, o banco procurará explorar a tokenização de ativos no mundo real com um setor bem identificado: o imobiliário.
O que é Tokenização?
É o processo de converter os direitos de propriedade de um ativo real (como um edifício ou um carro) num token digital registado numa blockchain.
No imobiliário, a tokenização permite levantar capital de forma inovadora antes mesmo da construção de um edifício, por exemplo. “Posso construir toda esta cadeia de valor até ao momento em que o ativo imobiliário já existe, portanto já o financei, construí-lo, e a seguir ainda posso utilizar isto para rentabilizar o investimento imobiliário que eu já construí. Portanto, isto tem uma dimensão económica gigante”, conclui António Henriques.
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