O que correu mal com a PayPal?
por Gabriel Lagoa | 6 de Abril, 2026
Em 2021 chegou a valer mais de 350 mil milhões de dólares. Hoje vale cerca de 42 mil milhões. A história da PayPal é um aviso sobre o que acontece quando o mercado passa à frente.
A PayPal foi, durante muito tempo, sinónimo de pagamentos online. Hoje, a empresa que ajudou a inventar o comércio digital debate-se com uma crise que vai além da turbulência dos mercados: é estrutural.
Quem o diz é o analista da XTB Vítor Madeira, que coloca o problema em perspetiva: “O desempenho negativo da PayPal não é um fenómeno recente. É uma tendência que se arrasta desde o seu máximo histórico, em julho de 2021, acumulando uma desvalorização superior a 80%.”
Desde abril do ano passado, por exemplo, as ações da empresa caíram cerca de 22,5%, com a capitalização bolsista a descer para os 41,7 mil milhões de dólares. Em 2021, a empresa chegou a valer mais de 350 mil milhões de dólares.
O problema não é só externo
Seria fácil culpar a conjuntura, juros altos, receios de recessão, investidores avessos ao risco. Mas a queda da PayPal começou muito antes da atual agitação geopolítica. “O mercado está a penalizar a erosão da vantagem competitiva da empresa, e não apenas a reagir a ciclos económicos temporários”, sublinha Vítor Madeira.
Um dos problemas está no chamado branded checkout, os botões “Pagar com PayPal” presentes em milhões de sites de comércio eletrónico. Este segmento, onde a empresa ganha mais dinheiro, cresceu apenas 1% no final de 2025, contra 6% no ano anterior. Rivais como a Apple Pay, a Google Pay, a Stripe e a Adyen têm vindo a ganhar terreno, muitas vezes integrados mais fundo nos dispositivos e plataformas do dia a dia.

No segmento de Buy Now, Pay Later, o cenário é semelhante: a PayPal chegou tarde a um mercado que a Klarna e a Affirm já tinham moldado. “Embora a PayPal tenha eventualmente lançado a sua própria solução, fê-lo tardiamente e num espaço já saturado onde as margens de lucro são tipicamente mais esmagadas”, afirma o analista da XTB.
Resultados abaixo do esperado e mudança de CEO
No quarto trimestre de 2025, a empresa divulgou receitas e lucros abaixo das estimativas dos analistas. Mas o que mais pesou foi a ausência de perspetivas convincentes para 2026. Sem crescimento claro à vista, os investidores perderam a paciência e o conselho de administração afastou o CEO Alex Chriss, menos de dois anos e meio depois de o nomear.
O lugar foi ocupado por Enrique Lores, antigo presidente executivo da HP, uma escolha que alimenta a especulação sobre uma eventual venda de partes do negócio. Segundo a Bloomberg (acesso pago), pelo menos um grande concorrente terá mostrado interesse em adquirir a empresa na totalidade, enquanto outros só cobiçam ativos específicos.
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A dimensão da crise ficou visível quando David Marcus, antigo presidente da PayPal, publicou um desabafo no LinkedIn: “Ao longo do tempo, a empresa que tinha todas as vantagens e que poderia ter-se tornado a mais consequente e relevante empresa de pagamentos do nosso tempo perdeu o seu ímpeto, a sua vantagem em produto e a sua capacidade de competir num mercado que está a ser reconfigurado e reinventado diante dos nossos olhos.”
E agora?
Nas últimas semanas, as ações da PayPal recuperaram algum terreno. Mas Vítor Madeira mantém cautela. “O rumo das ações dependerá da capacidade da gestão em apresentar e executar um plano estratégico credível“, diz, acrescentando que “se a empresa conseguir melhorar as margens, inovar nos produtos e recuperar quota de mercado, poderemos assistir a uma inversão de tendência. Caso contrário, o título arrisca-se a testar novos mínimos.”
A PayPal tem a seu favor fluxos de caixa consistentes, uma base de utilizadores global e o Venmo, uma aplicação de pagamentos entre particulares que continua a crescer nos Estados Unidos. Falta agora provar que consegue voltar a crescer no seu negócio central.