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Mais de um ano depois do apagão, o que mudou para as empresas?

por Gabriel Lagoa | 5 de Maio, 2026

O apagão expôs fragilidades que as organizações portuguesas conheciam mas não tinham testado. Um ano depois, o que mudou?

Passou-se pouco mais de um ano desde o apagão que deixou Portugal às escuras durante algumas horas. Na manhã de 28 de abril, parte da equipa do The Next Big Idea estava em Coimbra na moderação de um evento na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra quando, de repente, as luzes se apagaram. “Deve ter sido um corte rápido”, pensou-se na sala de aulas onde decorria a sessão, mas certo é que a luz só voltaria daí a umas boas horas. 

Por todo o país, organizações de todos os setores ficaram a descoberto. Houve sistemas que não arrancaram como previsto, planos de continuidade que não tinham sido testados à sério e uma dependência de conectividade que só se torna visível quando a luz se apaga. O The Next Big Idea falou com Ricardo Caetano, diretor de projetos da Opensoft, e com José Figueiredo, principal engineer de energia e infraestruturas críticas da Critical Software, para perceber o que este evento mudou, ou devia mudar, na forma como as empresas portuguesas pensam resiliência tecnológica.

Um plano que funciona só quando tudo corre bem não é um plano

A primeira constatação pode parecer banal, mas o apagão veio reforçar a sua urgência: ter um plano de continuidade não é o mesmo que ter um plano que funciona sob pressão. “Toda a gente tem um plano até levar um soco na boca”, diz Ricardo Caetano, citando o histórico pugilista Muhammad Ali. Na Opensoft, uma das formas de testar a recuperação de sistemas passa por usar migrações tecnológicas planeadas como simulações, medindo tempos e afinando processos com base no que corre menos bem. O problema, admite, é que o investimento neste tipo de governação não acompanha o ritmo com que as organizações adicionam novos sistemas ao seu parque de IT.

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Do lado da Critical Software, José Figueiredo aponta para algo que considera mais estrutural. O apagão não foi causado por uma falha isolada, mas por uma combinação de comportamentos normais que, em contexto extremo, empurrou o sistema para um ponto sem retorno. “O risco relevante nem sempre está nos componentes individuais, mas nos acoplamentos entre sistemas corretos”, explica. A consequência prática é que os modelos tradicionais de análise de falhas são insuficientes para capturar este tipo de cenário, e a resiliência tem de ser desenhada para absorver surpresa, não apenas para resistir a ameaças conhecidas.

Quando o software é a rede

A transição para as renováveis complica o quadro. A descentralização da produção de energia criou um sistema elétrico muito mais dependente de software, em tempo real, para manter a estabilidade. “O software deixou de ser um sistema de apoio e passou a ser parte integrante da estabilidade física da rede”, diz José Figueiredo. Coordenar milhares de entidades autónomas é um problema de engenharia que a indústria ainda não resolveu completamente.

Portugal recuperou a rede em cerca de 12 horas, o que, do ponto de vista técnico, é considerado relevante. José Figueiredo reconhece que correu bem aquilo que só se vê quando é mesmo necessário: os procedimentos de reposição faseada e a capacidade de operadores experientes tomarem decisões sob pressão. Mas a recuperação, nota, “poderia ter sido mais previsível e menos dependente de conhecimento tácito acumulado por indivíduos específicos”. Uma vulnerabilidade que não aparece em nenhum manual de risco, mas que o apagão tornou difícil de ignorar.

Para Ricardo Caetano, a questão da soberania digital entrou definitivamente na agenda das organizações portuguesas depois deste evento. A concentração crescente de recursos computacionais em Portugal aumenta tanto a oportunidade como a responsabilidade. “Cabe agora aos responsáveis de IT encontrar soluções para mitigar esse risco e utilizar as lições aprendidas neste susto para assegurar que a resiliência soberana é suportada pela resiliência tecnológica adequada”, remata.

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