Habitação, saúde, turismo e tecnologia: as empresas portuguesas que querem mudar o mercado do bem-estar
por Gabriel Lagoa | 16 de Setembro, 2026
Da habitação ao turismo, do cuidado de idosos às apps, o bem-estar deixou de ser um negócio “zen” para passar a ter dados, tecnologia e clientes institucionais.
Para muita gente, o bem-estar ainda evoca negócios muito “zen” com pouca substância. Um conjunto de empreendedores e executivos portugueses tem dados para argumentar o contrário.
“O bem-estar deixou de ser um nicho ocupado por negócios muito ‘zen’ e com pouca substância. Hoje, negócios mais tecnológicos e científicos com novos produtos, serviços e modelos de negócio ocupam esse espaço. As pessoas querem ganhar tempo, reduzir preocupações e viver melhor, e estão dispostas a escolher (e a pagar) quem lhes resolve isso”, afirma Vítor Ferreira, CEO da Startup Leiria.
O responsável identifica três tendências no ecossistema: o bem-estar passou a vender-se a “empresas, municípios e instituições, que perceberam que cuidar das pessoas é eficiência e não um custo”; a inteligência artificial está a ser usada para personalizar e prevenir, e não apenas para medir; e a proposta de valor mais forte é “devolver tempo e tranquilidade às pessoas”.
A casa como problema fundamental de bem-estar
Gonçalo Melo, CEO da Planta Smart Homes, empresa que desenvolve o PlantaOS, um sistema operativo para casas inteligentes que aprende com quem lá vive e gere conforto, energia e segurança de forma automática, coloca a ambição em números. O objetivo de investigação declarado é “explorar caminhos para reduzir o preço real da habitação em 99%, num horizonte de cinco anos, mantendo a qualidade e as condições de comparação equivalentes”. Gonçalo Melo reconhece que é “uma meta que orienta a investigação e exige validação técnica e económica”, mas insiste: “O problema ocupa uma parte radical da vida de tanta gente.”
Para o CEO, “uma casa representa abrigo, intimidade e segurança, mas também propriedade, encargos e decisões que podem condicionar décadas de vida”. Quando alguém dedica 30 a 40 anos a pagar uma casa, isso é, na sua leitura, “um problema fundamental de bem-estar”.
800 mil cuidadores, 30% menos internamentos
Portugal é o segundo país mais envelhecido da União Europeia, com mais de 24% da população acima dos 65 anos e um Índice de Envelhecimento superior a 180 idosos por cada 100 jovens, segundo o INE e o Eurostat. Tiago Marques, fundador e CEO da Puro Cuidado, sublinha que existem cerca de 800 mil cuidadores informais no país, expostos a “elevados níveis de sobrecarga física e psicológica”, e que os cuidados domiciliários estruturados “reduzem em até 30% a taxa de internamentos hospitalares evitáveis e reinternamentos recorrentes em idosos”, segundo a OMS.
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No setor do turismo, a dinâmica não é diferente. Pedro Mello Breyner, diretor executivo do NEST, defende que a inovação “desempenha um papel determinante no desenho de ofertas que se dirigem a viajantes que procuram experiências com impacto positivo na saúde física e mental, no equilíbrio pessoal e na qualidade de vida”. No NEST, isso traduz-se no programa S ao Cubo (S³), que incentiva projetos que combinam sustentabilidade económica, social e ambiental numa parceria com a Universidade da Beira Interior dedicada ao termalismo, área que considera estratégica para “valorizar os recursos termais portugueses e reforçar o seu contributo para a saúde, o envelhecimento ativo e o bem-estar”.
Para o diretor executivo, “o bem-estar deixará de ser um segmento específico para se afirmar como um critério transversal na conceção da oferta turística do futuro”. A convergência entre turismo, ciência, inovação e bem-estar é, na sua leitura, “uma das mais relevantes oportunidades de criação de valor para os destinos e para a economia nos próximos anos”.
Tecnologia que está lá quando é precisa e recua quando não é
Bruno Correia, fundador e CEO da MicroVida, parte de uma premissa: “A tecnologia não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta para simplificar o dia a dia, aproximar pessoas, resolver problemas concretos e melhorar a qualidade de vida.” No projeto MV Alcanena, o objetivo é que o digital funcione “como uma ponte entre gerações e não como uma barreira”, criando ligações mais diretas com produtos, produtores e serviços locais. Bruno Correia reconhece que o desafio está em “acompanhar a velocidade da tecnologia sem perder as pessoas de vista”, com a inteligência artificial a abrir “oportunidades extraordinárias”, desde que sirva para “potenciar a ação humana e não substituí-la”.
Já Filipe Ferreira, cofundador da Air Apps, acrescenta que “os utilizadores valorizam cada vez mais tecnologias que respeitem o seu ritmo e que estejam disponíveis quando precisam delas sem reclamar atenção quando não precisam — o que é, no fundo, uma expressão concreta de bem-estar digital.” Para Filipe Ferreira, o padrão de avaliação passa pela “forma como as pessoas integram as nossas aplicações nas suas vidas.” O objetivo da empresa é que a tecnologia que desenvolve “liberte tempo e permita que as pessoas se concentrem naquilo que realmente importa para elas”.