Há uma plataforma portuguesa que ajuda a encontrar concursos públicos em 170 países
por Inês de Almeida Fernandes | 26 de Outubro, 2026
A TRINTA, ferramenta de inteligência artificial para encontrar concursos públicos, analisa milhares de plataformas, documentos extensos e faz frente aos prazos curtos.
Entre janeiro e agosto de 2026, foram adjudicados contratos públicos no valor de 14,7 mil milhões de euros. Um em cada sete desses concursos recebeu apenas uma candidatura, o que significa que foram ganhos sem qualquer concorrência.
Por trás dos números não está a falta de interesse das empresas na contratação pública, mas antes a incapacidade de encontrarem os concursos ou terem tempo para se candidatar.
O processo pode implicar verificar múltiplas plataformas e ler centenas de páginas para conseguir perceber se a oportunidade corresponde ao que a empresa tem para oferecer. Quando isso eventualmente acontece, pode já ser tarde para apresentar uma candidatura.
Foi este o problema que Lucas Viegas quis resolver quando criou a TRINTA, uma plataforma de IA que não só ajuda as empresas a encontrar concursos públicos adequados em vários países, mas também oferece uma série de ferramentas para auxiliar o processo de candidatura.
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A ideia surgiu na Ultrancontrolo, a empresa da família, que trabalha com equipamentos e sistemas de oxigénio e ar comprimido. Como parte do negócio passa pelos hospitais, a equipa depende de concursos públicos para encontrar novas oportunidades, mas acompanhar os procedimentos exigia um trabalho difícil de sustentar manualmente.
“A equipa precisava de encontrar os concursos assim que eram publicados, perceber se correspondiam aos produtos da empresa e avaliar se havia tempo e condições para preparar uma candidatura”, começou por explicar.
Um processo que podia começar com a leitura de um título aparentemente promissor podia, afinal, muitas páginas depois, acabar na conclusão de que aquele negócio não era para a empresa. Além das várias etapas e da grande necessidade de recursos, os prazos também não jogam a favor de quem procura.
No setor da saúde, por exemplo, onde atua a Ultracontrolo, determinados projetos podem exigir parceiros locais, organização de infraestruturas e o envolvimento de várias pessoas na elaboração de orçamentos. Tudo isto num prazo que, segundo o responsável, pode ser de apenas uma semana ou 15 dias.
É precisamente por isso que é preciso encontrar os concursos “o mais rápido possível”, coisa que a TRINTA cedo provou conseguir fazer. A primeira prova de que a ferramenta podia fazer a diferença chegou pouco depois de ter sido lançada na Ultracontrolo, quando identificou um concurso de 700 mil euros que, no espaço de duas semanas, a empresa familiar acabou por ganhar.
Face a estes resultados, Lucas Viegas decidiu disponibilizar a plataforma a outras empresas, depois de concluir que enfrentavam dificuldades semelhantes. “O que tenho percebido ao trabalhar com outras empresas é que elas têm o produto, mas nem sabem que o concurso existe”, diz, sublinhando que é “ humanamente impossível encontrar todos” os que interessam.
A IA ao serviço das empresas
Todos os dias, a ferramenta analisa 1900 plataformas de contratação pública de 170 países, nas línguas de origem, processo que começa cedo para que os utilizadores encontrem um feed em que já estão agregadas todas as oportunidades potencialmente relevantes para a sua atividade.
Quando um concurso é encontrado, a ferramenta inicia uma segunda camada de análise em que descarrega e examina os documentos disponíveis para perceber se vale a pena apresentá-lo ao cliente.
A proposta de valor da TRINTA não passa apenas por identificar concursos relevantes, mas fazê-lo de forma totalmente personalizada às necessidades de cada empresa. Quando a solução é contratada, a configuração da plataforma é feita à medida. A TRINTA analisa o catálogo de produtos, consulta o site e identifica palavras-chave e sinónimos que podem aparecer nos concursos, incluindo noutras línguas.
Também pode introduzir requisitos específicos, como certificados necessários, ou excluir oportunidades que não correspondam ao negócio. “Conseguimos ir até ao detalhe de não queremos isto, mas queremos aquilo”, disse, explicando que a ferramenta cruza toda essa informação com os requisitos dos concursos e atribui a cada oportunidade uma pontuação de zero a 100, para ajudar as empresas a decidir onde vale a pena investir tempo.
A título de exemplo, o responsável referiu o caso de um cliente para quem tinham sido identificados 921 concursos, dos quais apenas 19 pareciam justificar uma análise mais aprofundada. Sem a TRINTA a filtrar, a equipa teria de abrir os documentos de centenas de concursos para chegar exatamente à mesma conclusão.
A pontuação também pode ter em conta a existência de parceiros no país onde decorre o concurso, os certificados disponíveis e o histórico de procedimentos semelhantes. A TRINTA disponibiliza ainda informação sobre concursos anteriores, incluindo quem ganhou e, quando esses dados são públicos, por que valor. Isso pode ajudar as empresas a perceber como se posicionar perante uma nova oportunidade.
Existe ainda uma outra funcionalidade, a aba de ‘sinais’, que assinala e informa os utilizadores de qualquer alteração aos requisitos ou prazos de um concurso, uma vez que qualquer detalhe que passe despercebido pode custar a candidatura.
Processo de crescimento e passos para o futuro
A TRINTA saiu da esfera da Ultracontrolo para ser apresentada ao público em junho e, entretanto, já tem uma carteira de cerca de 30 clientes. Inicialmente, o fundador acreditava que a solução seria útil, sobretudo, para pequenas e médias empresas, mas os primeiros clientes acabaram por ser grandes grupos com atividade em áreas como limpeza, segurança, construção, educação e energia.
Um dos primeiros contactos, contou, acabou por abrir a porta a um grupo de 11 empresas, depois de um dos seus responsáveis perceber o potencial da ferramenta. De acordo com o CEO da TRINTA, o grupo em questão movimenta cerca de mil milhões de euros em concursos públicos.
A experiência de trabalho acabou por demonstrar que a plataforma pode ser útil mesmo para organizações com equipas especializadas e recursos suficientes para seguir a contratação pública. “Todos somos humanos”, apontou, reforçando a dificuldade de comparar centenas de documentos e detetar erros quando há muitos detalhes para verificar.
Para já, a empresa ainda é financiada com fundos próprios e Lucas Viegas continua a trabalhar sozinho na operação. Está a tentar contratar pessoas para a área comercial, que considera essencial para marcar reuniões, demonstrar o produto e acompanhar o feedback dos clientes.
Em paralelo, está a desenvolver novas funcionalidades para que as equipas possam gerir dentro da plataforma o processo de preparação e submissão de propostas e comunicar entre si, sem terem de recorrer a múltiplas ferramentas.
Quanto aos custos de utilização, a plataforma disponibiliza três modelos de subscrição definidos de acordo com o volume de faturação.
Até dez milhões de euros, o preço mensal é de dois mil euros, enquanto que empresas com faturação até 300 milhões de euros pagam 7500 euros por mês. Acima desse valor, o custo é personalizado de acordo com as necessidades e dimensão da operação das empresas.
O primeiro plano está associado ao mercado local, o que significa que a ferramenta só corre as plataformas de contratação pública do mercado em que a empresa está inserida. Nos restantes modelos, já é possível monitorizar todas as plataformas e procurar oportunidades em múltiplos mercados e línguas.
“Apesar de os valores serem mensais, olhando para a faturação das empresas, o custo acaba por ser muito baixo. Não chega a 1% em comparação com o que estamos a oferecer ao cliente”, considerou o responsável.
Considerando que há concursos públicos de vários milhões de euros, as empresas reconhecem a TRINTA como uma mais-valia, não como um custo, acrescentou.
Quanto ao futuro da plataforma, o objetivo é continuar a cumprir o propósito para o qual foi criada: garantir que todas as empresas têm “acesso aos concursos públicos de forma mais fácil, que consigam participar e ganhar”.
Para o responsável, a contratação pública continua a ser “um poço” de oportunidades que muitas organizações não conseguem descobrir, seja pela dimensão dos documentos, pela dispersão da informação ou pela dificuldade em acompanhar procedimentos noutros países.
“Há sempre alguém a comprar. A empresa é que não sabe”, disse, esperando que, daqui para a frente, mais organizações consigam encontrar clientes através da contratação pública e tenham à sua disposição todas as condições para participar.