Voltar | Empresas Dossier: Crescer a partir de Portugal

Há algo novo a acontecer na agricultura portuguesa

por Gabriel Lagoa | 24 de Novembro, 2025

Duas empresas agrícolas, no Alentejo e em Ferreira do Zêzere, mostram como o financiamento está a moldar a modernização da produção de vinho e de ovos em Portugal.

Na costa alentejana e no interior de Ferreira do Zêzere, duas empresas agrícolas mostram como a tradição e a modernização podem coexistir. A Vicentino Wines, fundada por Ole Martin Siem, norueguês que se fixou em Portugal há mais de 40 anos, produz vinho influenciado pelo Atlântico. A Uniovo, que nasceu numa pequena exploração nos anos 80, tornou-se uma referência nacional na produção de ovos. Ambas têm estruturas diferentes, produzem para mercados distintos e operam em regiões sem relação direta. Ainda assim, enfrentam desafios comuns: investir, ganhar escala e lidar com processos que demoram mais do que as empresas desejariam.

Ole Martin Siem resume o ponto de partida da Vicentino:  “É o resultado de muitos anos a viver em Portugal, a trabalhar noutros tipos de agricultura. Durante mais de 40 anos, aprendi sobre o terroir especial da Vicentino e da Costa Vicentina”. A inclinação para o vinho surgiu mais tarde, depois de anos a estudar variedades e clima. Plantámos 10 hectares e fomos aprendendo sobre as castas, o terroir e o clima. No fundo, era um livro em branco, porque ninguém tinha feito isto antes.”

Na Uniovo, o percurso foi mais gradual. Gil Domingues, gestor da empresa, descreve o arranque: “A Uniovo começou há cerca de 38 anos, com uma pequena exploração de produção de ovos. Nos anos 90 começámos a expandir e investimos em novos terrenos, com pavilhões e um centro de classificação mais moderno.” Hoje, a empresa mantém uma produção diária que pode chegar aos 600 mil ovos.

Desafios que se repetem em geografias diferentes

Ambas enfrentam pressões semelhantes: tecnologia dispendiosa, licenças demoradas e a necessidade de manter operações que dependem de ciclos longos. “A evolução do mercado exige tecnologia avançada, e isso tem custos elevados”, explica Gil Domingues. “E depois há a parte dos licenciamentos. São processos que dificultam os timings delineados para os investimentos.”

Do lado da Vicentino Wines, o “maior desafio ao entrar no mundo do vinho é, naturalmente, a grande competitividade do setor”, diz Ole Martin Siem. Com o aumento da procura, no entanto, surgiu a necessidade de construir uma nova adega, projeto que exigia investimento substancial.

A busca por financiamento

É aqui que as duas histórias se cruzam. Tanto a Uniovo como a Vicentino recorreram à linha de crédito Agri Portugal, criada pelo Fundo Europeu de Investimento e o Estado português para apoiar projetos agrícolas. O objetivo é simples: permitir que empresas do setor agrícola tenham acesso a financiamento em condições mais favoráveis.

Na Vicentino, o impacto foi direto. A linha ajudou a concretizar o investimento na nova adega. “Na produção de vinho, planta-se hoje e colhe-se daqui a muitos anos. Por isso, ter um financiamento sólido e acessível é absolutamente fundamental”, considera o fundador. Na Uniovo, o crédito serviu para avançar com métodos de produção alternativos e reforçar a capacidade de produção ao ar livre.

Embora distintas, as duas empresas têm impacto local. A Uniovo emprega cerca de 70 trabalhadores, muitos deles do próprio concelho de Ferreira do Zêzere. “É importante contribuirmos para a região. Com o nosso crescimento, conseguimos também dar algo à população”, refere Gil Domingues. 

Já a Vicentino vê na sua adega um ponto de atração adicional para quem visita a costa alentejana. “Somos a única adega da região. As pessoas vêm pelas praias e pelo marisco fresco. Mas é sempre bom oferecer outras experiências, e nós proporcionamos aos visitantes uma boa introdução ao mundo do vinho”.

Subscreve a nossa newsletter, onde todas as terças e quintas podes ler as melhores histórias do mundo da inovação e das empresas em Portugal e lá fora.