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Estudante cria plataforma de IA que deteta cancro da pele através de fotografias

por Marta Amaral | 7 de Abril, 2026

A Dermamatica utiliza IA para apoiar médicos de família na deteção precoce do cancro da pele.

Há histórias que nos marcam para sempre. Para Sam Izadloo, estudante de Medicina na Católica Medical School e fundador da Dermamatica, foi a de uma paciente cujo marido reparou numa lesão atrás da orelha que não cicatrizava.

O casal foi ao médico de família, mas ficou com dúvidas sobre como avançar. A demora no encaminhamento para um médico/tratamento atrasou o processo. Quando a paciente chegou finalmente ao dermatologista, a lesão já tinha evoluído e o tratamento acabou por ser muito mais agressivo “do que teria sido necessário”.

Ela não era uma exceção. Estudos mostram que um número significativo de melanomas não é identificado na primeira consulta dos cuidados de saúde primários, sublinha o estudante de medicina.

Foi a partir desse episódio que o estudante iraniano concluiu que os piores desfechos no cancro da pele não decorrem apenas da biologia da doença, mas também da incerteza clínica, do acesso limitado à especialidade e dos atrasos no encaminhamento. E se fosse possível intervir mais cedo nessa cadeia?

Detetar um cancro com fotografias

Foi através da resposta a esta pergunta que nasceu a Dermamatica, uma plataforma de healthtech que utiliza inteligência artificial para apoiar médicos de família na deteção precoce do cancro da pele.

A solução foi criada para colmatar uma lacuna na triagem inicial de lesões cutâneas suspeitas, disponibilizando aos profissionais de saúde uma ferramenta prática, suportada por IA, e permitindo que os doentes entrem mais cedo no percurso de cuidados. O objetivo é não só aproximar os doentes de uma avaliação atempada nos cuidados de saúde primários, mas também dar aos médicos maior confiança na triagem de lesões da pele.

A plataforma analisa imagens captadas por smartphone, por dermatoscópio e através de uma fotografia corporal total em 3D. Ao integrar estas três modalidades, a Dermamatica procura reduzir atrasos no encaminhamento de casos suspeitos e facilitar um diagnóstico mais rápido, sobretudo em contextos onde o acesso a dermatologistas é mais limitado.

O sistema foi treinado com cerca de 520 mil fotografias provenientes de bases de dados internacionais de investigação e apresenta, internamente, uma precisão de aproximadamente 90% na deteção e classificação de lesões. Mas, para Sam Izadloo, o que distingue a Dermamatica de outras soluções não é apenas o modelo tecnológico, é a filosofia por detrás da ferramenta.

Não estamos a criar uma ferramenta que simplesmente dá uma resposta aos pacientes através do telemóvel, nem um sistema que contorna o percurso clínico. Estamos a criar um ecossistema no qual os pacientes podem participar na recolha precoce das suas lesões cutâneas, enquanto a tomada de decisão médica permanece onde deve estar: no médico, explica o estudante da Católica Medical School.

Na prática, isto traduz-se numa aplicação para o paciente que usa inteligência artificial para orientar a captura de imagens de alta resolução, mas cujo resultado não é entregue ao utilizador como um diagnóstico.

A informação segue para os cuidados de saúde primários, onde o profissional de saúde acede à plataforma e recebe um índice de risco, um mapa de calor que destaca as características mais relevantes da lesão e ainda casos previamente biopsiados com características visuais semelhantes para comparação. A IA não decide mas informa.

IA sim (mas com calma)

Um dos princípios fundadores da plataforma é precisamente a consciência dos limites da tecnologia. Quando o sistema está incerto, está programado para privilegiar a sinalização em vez da omissão. Na triagem oncológica, um falso negativo pode ter consequências que um falso positivo não tem.

“Numa altura em que a IA está a evoluir muito rapidamente, acreditamos que é tão importante reconhecer as suas limitações como abraçar o seu potencial”, sublinha Sam Izadloo.

A plataforma foi desenhada para ser interpretável, permitindo ao médico compreender o raciocínio por detrás de cada avaliação, em vez de receber apenas uma resposta de “caixa-preta”. A inteligência artificial deve funcionar como apoio à decisão clínica, não como substituto do julgamento médico.

Uma solução “pronta” à procura de investimento

Depois de ter sido selecionada entre mais de 600 candidaturas internacionais para o programa Protechting 8.0, a Dermamatica entrou numa fase de validação em parceria com a Fidelidade, o Hospital da Luz Learning Health, a Fosun Foundation e a La Positiva.

Os projetos-piloto em contexto clínico real são agora a próxima fronteira. Afinal, como reconhece Sam Izadloo, “na saúde, o sucesso não se mede apenas pelo desempenho em ambientes de desenvolvimento controlados, mede-se pela fiabilidade consistente na prática clínica real”.

É também nesta fase que a startup procura consolidar parcerias que permitam transformar a tecnologia em prática clínica. “Estamos agora numa fase em que as parcerias mais valiosas são aquelas que nos ajudam a transformar inovação em realidade clínica”, explica o fundador.

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Isso passa por trabalhar com hospitais, redes de cuidados de saúde primários e outras organizações que possam apoiar projetos-piloto, validar a plataforma em contexto real e contribuir para a sua integração nos percursos de cuidados do dia a dia. A equipa procura também colaborar com clínicos, especialistas em dermatologia e parceiros estratégicos que ajudem a desenhar fluxos de trabalho e a garantir uma adoção eficaz.

“O objetivo não é apenas testar a tecnologia, mas construí-la de uma forma que seja verdadeiramente útil, escalável e merecedora da confiança das pessoas que a vão utilizar”, sublinha.

Em paralelo, a Dermamatica está à procura de investimento que permita acelerar a preparação regulamentar, o desenvolvimento do produto, a implementação de pilotos e a entrada no mercado.

Estamos especialmente interessados em parceiros que compreendam que a IA em saúde não se resume a construir um modelo robusto, mas a criar uma solução que seja clinicamente fiável, de acordo com as normas e preparada para gerar valor no mundo real.

A ambição da equipa vai além da validação técnica e da entrada no mercado europeu. A visão de longo prazo passa por levar a plataforma a regiões onde o acesso à dermatologia é escasso, através de parcerias com sistemas de saúde, ONG e programas de saúde pública.

A desigualdade geográfica no acesso a cuidados especializados não é apenas uma falha do sistema: para a Dermamatica, é também uma oportunidade de impacto.

A história começou com uma paciente. A ambição é garantir que outras não tenham de chegar tarde demais.