Estas são as tendências que estão a transformar o mercado global de gás natural
por Marta Amaral | 13 de Abril, 2026
O mercado global de gás natural, responsável por quase 25% do fornecimento mundial de energia primária, está a entrar numa nova fase.
De acordo com o novo relatório “The Global Gas Game”, da Roland Berger, este mercado gera cerca de 1,3 biliões (trillion) de dólares em receitas anuais, mas enfrenta agora um ponto de inflexão que poderá redefinir o seu papel nas próximas décadas.
Porquê? Volatilidade crescente, tensões geopolíticas e mudanças estruturais profundas.
Durante anos visto como uma ponte na transição energética, o gás natural está a assumir uma nova dimensão: a de instrumento estratégico nas relações internacionais.
A reconfiguração dos fluxos globais impulsionada, entre outros fatores, pela redução das importações europeias de gás russo está a tornar o mercado mais interligado e, simultaneamente, mais imprevisível. Neste novo equilíbrio, o gás natural liquefeito (LNG) ganha protagonismo, permitindo maior flexibilidade no transporte e distribuição, mas também expondo os preços a dinâmicas globais mais voláteis.
“Aqueles que agirem rapidamente para aumentar a flexibilidade e integrar gases renováveis estarão em melhor posição para garantir um fornecimento sustentável”, sublinha Pedro Galhardas, Senior Partner da Roland Berger Portugal.
Ásia acelera e redefine o centro de gravidade
Um dos sinais mais claros desta transformação é a mudança do centro de gravidade da procura global. A Ásia, em particular o Sul e Sudeste Asiático, está a emergir como o principal motor de crescimento, impulsionada pela substituição do carvão e pela expansão industrial. A China destaca-se não só como grande compradora, mas também como potencial “swing trader” no mercado de LNG, capaz de influenciar preços e fluxos globais.
Este reposicionamento contribui para um mercado mais dinâmico, mas também mais sensível a choques externos e decisões políticas.
E portugal? Para mercados como o ibérico, o momento é de definição estratégica.
“Espanha e Portugal devem clarificar como pretendem posicionar-se no mercado global do gás”, defende Pedro Galhardas, apontando a flexibilidade e a integração de gases renováveis como fatores-chave.
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Mais renováveis, mais volatilidade
Paradoxalmente, o avanço das energias renováveis está também a aumentar a complexidade do mercado do gás.
Fontes intermitentes como a solar e eólica continuam a crescer, mas dependem de soluções complementares para garantir estabilidade, um papel que o gás natural continua a desempenhar. Ao mesmo tempo, a eletrificação e a transição energética estão a alterar padrões de consumo, criando novos ciclos de procura e maior volatilidade nos preços.
Flexibilidade será o novo diferencial competitivo
Num cenário cada vez mais imprevisível, a capacidade de adaptação torna-se o principal fator de competitividade. O relatório identifica três prioridades estratégicas para empresas e países:
- Reduzir a dependência do gás sempre que existam alternativas viáveis
- Investir em capacidades avançadas de trading
- Apostar em infraestruturas críticas, como terminais de LNG e armazenamento
Mais do que nunca, a gestão dinâmica de portfólios (com capacidade de arbitragem e resposta rápida a mudanças geopolíticas) será determinante.
Num sistema energético em transformação, o gás natural não está a desaparecer, está a reinventar-se. E essa reinvenção será tudo menos estável.