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Estará a IA a enfrentar a primeira prova de fogo nas bolsas?

por Gabriel Lagoa | 25 de Fevereiro, 2026

Depois do entusiasmo inicial, investidores estão mais seletivos: premiam resultados concretos com IA e castigam investimento sem retorno imediato.

Durante meses, quando uma empresa mencionava o uso de inteligência artificial nos seus serviços e soluções, os olhos de muitos investidores brilhavam. Agora, empresas de tecnologia que queiram ver a sua valorização aumentar enfrentam critérios mais afinados. A distinção que ganha força nos mercados divide-se entre “IA tangível” e “IA especulativa”.

A primeira traduz-se em receitas mensuráveis. Serviços de cloud que crescem com integração de modelos de IA, ferramentas que aumentam a eficiência da publicidade digital, ou funcionalidades pagas incorporadas em produtos já existentes. A segunda refere-se a projetos com horizontes longos, custos elevados e retorno ainda por demonstrar, como os laboratórios de dados das big tech que poderão demorar anos até serem rentáveis. 

Quem monetiza, resiste melhor

O comportamento recente das bolsas reflete essa diferença. Empresas com resultados associados à monetização direta da IA tendem a ser recompensadas. A Nvidia é o exemplo mais evidente: a procura por chips para treino e inferência de modelos de inteligência artificial traduziu-se num aumento de receitas e margens, com impacto direto na valorização em bolsa. Desde o início de 2026, as ações da empresa valorizaram 4,29%. 

No caso da Alphabet, o cenário é mais ambivalente. A empresa tem apresentado crescimento na Google Cloud e reforçado a integração de IA na pesquisa e na publicidade. Ainda assim, os mesmos investidores que valorizam receitas e margens penalizam aumentos expressivos de investimento quando o retorno é projetado para vários anos. Mesmo após superar estimativas, a empresa caiu em bolsa ao anunciar um reforço significativo do investimento em IA, na última apresentação de resultados trimestrais. À data de publicação deste artigo, as ações acumulam uma queda de 1,29% desde o início do ano. 

2026 é ano decisivo

O pano de fundo é conhecido. As grandes tecnológicas anunciaram investimentos avultados em infraestruturas e modelos de IA. O mercado, que inicialmente valorizou a ambição estratégica, parece agora perguntar quando é que essa despesa se traduz em lucro.

É neste contexto que 2026 está a ser encarado como um teste à tese da inteligência artificial. Segundo a Reuters, o setor tecnológico do S&P 500 regista o pior arranque de ano desde 2022, com quedas mais acentuadas nas empresas de software, enquanto os semicondutores apresentam desempenho positivo. A própria Nvidia é descrita como um barómetro do setor, com os seus resultados a funcionarem como um sinal para o mercado sobre a sustentabilidade do ciclo da IA. Ao mesmo tempo, investidores penalizam grupos expostos a investimento elevado sem retorno imediato, como a Microsoft, que acumula uma das maiores quedas no índice este ano, pressionada por dúvidas sobre o retorno da despesa em infraestruturas de IA.

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