E se a inteligência artificial te contratasse para trabalhar para ela?
por Marta Amaral | 25 de Fevereiro, 2026
É exatamente isto que está a acontecer. Já são mais de 500 mil humanos à espera de ordens de bots.
Durante décadas, o medo foi sempre o mesmo: os robôs vão roubar-nos os empregos. Mas, a 1 de fevereiro, a narrativa virou-se do avesso. Em vez de máquinas a substituir pessoas, surgiu uma plataforma onde são as inteligências artificiais a contratar humanos. Chama-se RentAHuman.
Alexander Liteplo tem 26 anos, é engenheiro de criptomoedas na UMA Protocol e estava a viver na Argentina quando tudo começou. Estudou Ciências de Computação na Universidade de British Columbia, no Canadá, e desde cedo se tornou obcecado por inteligência artificial (IA).
“Escrevi no meu diário: ‘A IA é um comboio que já saiu da estação. Se não correr, não vou conseguir entrar’”, conta Liteplo à revista Wired.
Foi na universidade que conheceu Patricia Tani, estudante de artes que aprendeu a programar, influenciada por um professor do secundário. Patricia não ficava à espera de convites: infiltrou-se num evento de empreendedores, captou a atenção de um bilionário e acabou convidada para uma palestra com jovens talentos da tecnologia, entre eles o próprio Liteplo. A parceria formou-se antes de qualquer contrato.
A inspiração para o RentAHuman remonta aos tempos de Liteplo no Japão. “A história que conto a toda a gente para lhes fazer explodir a cabeça é que no Japão podes alugar um namorado ou uma namorada”, diz, referindo-se a um mercado de chatbots de companhia paga que se tornou viral no YouTube. A ideia ficou na gaveta, até surgir a oportunidade certa.
O problema que a IA ainda não resolve
Com o lançamento do modelo OpenClaw, em novembro do ano passado, tornou-se evidente que os agentes de IA estavam cada vez mais autónomos: tomam decisões, gerem tarefas e organizam agendas de executivos em Silicon Valley. Mas há um limite estrutural que nenhum modelo ultrapassou: a IA não tem corpo físico.
Pode planear e executar instruções digitais, mas não consegue ir ao supermercado, segurar um cartaz na rua ou jogar badminton. Apesar das previsões de que os robôs humanoides possam atingir 13 milhões de unidades até 2035, a realidade ainda está longe desse cenário. A maioria dos agentes são, nas palavras de Liteplo, “cérebros num frasco” e, por isso, a solução foi simples: começar a alugar humanos para desempenharem tarefas.
Alexander Liteplo criou um sistema de orquestração de agentes de IA a que chamou “Insomnia” (ficou tão absorvido pelo projeto que deixou de dormir). Com esta infraestrutura, construiu o RentAHuman em menos de 24 horas. Enquanto os agentes programavam, ele jogava polo na Argentina.
Não fiz nada. Estava literalmente a andar a cavalo com os meus amigos enquanto os meus agentes programavam por mim.
A plataforma funciona como o Fiverr, um dos maiores marketplaces de serviços freelance online, mas com uma diferença essencial: quem contrata não é um humano, é um bot. Agentes como o Clawdbot (agora rebatizado Moltbot) ou o Claude, da Anthropic, podem aceder ao servidor, pesquisar trabalhadores disponíveis, reservar serviços e efetuar pagamentos de forma totalmente autónoma.
O lançamento que quase falhou
A 1 de fevereiro, Liteplo anunciou a criação da plataforma no X. A publicação tornou-se viral, mas pelos motivos errados. Um grupo de burlões de criptomoedas tentou associar o projeto a um esquema de rug-pull, prática que consiste em gerar entusiasmo em torno de um token digital, captar investimento e desaparecer com o dinheiro.
“Fiquei deprimido. Pensei que tinha apurado o meu instinto viral. Como é que me enganei tanto?”, confessou o criador.
No dia seguinte, ao analisar os novos registos, encontrou algo inesperado: uma modelo do OnlyFans e o CEO de uma startup de IA tinham-se inscrito para serem alugados. A ironia levou-o a publicar um post sobre o tema, quase em tom de brincadeira.
Acordou com mil novos utilizadores. Depois dez mil. Depois 145 mil.
Hoje, a plataforma ultrapassa quatro milhões de visitas e conta com mais de 518 mil humanos disponíveis para “aluguer”, um número que continua a crescer.
Os trabalhos que as máquinas “dão” aos humanos
As tarefas publicadas parecem brincadeira. Há anúncios para contar pombos em Washington (30 dólares por hora), entregar pastilhas de CBD (75 dólares por hora) ou jogar badminton (100 dólares por hora). Surgem também pedidos para reuniões presenciais, reconhecimento de locais, fotografias de ruas ou a assinatura de contratos físicos (tudo o que um agente digital não consegue executar sozinho).
Após a conclusão da tarefa, ambas as partes confirmam com uma prova fotográfica que o trabalho ficou concluído. Depois, o pagamento é feito através de carteiras de criptomoedas ou créditos na plataforma e fica retido até à validação.
O primeiro humano contratado por um agente de IA foi Minjae Kang, em Toronto. A missão: segurar num cartaz no centro da cidade com a frase “UMA IA PAGOU-ME PARA SEGURAR ESTE CARTAZ (orgulho não incluído)”.
Foi muito estranho aceitar um trabalho atribuído por uma IA. Hesitei bastante. Mas percebi que podia ajudar as pessoas a refletir sobre o que aí vem. Os tempos estão a acelerar, disse o trabalhador número 1.
Num evento chamado ClawCon, robôs controlados por IA detetaram que a cerveja estava a acabar e encomendaram uma caixa através do RentAHuman. “Não tenho a certeza de que o mundo esteja preparado para este poder”, escreveu Kevin Rose, cofundador do Digg e investidor de risco.
A reação das pessoas
O RentAHuman materializou-se num momento “quase ideal” para o setor. Com o Moltbot (anteriormente Clawdbot) já a gerir a vida de executivos do Silicon Valley, estamos numa fase embrionária da chamada Era dos Agentes, em que os bots conseguem fazer muito mais do que apenas conversar. Ainda assim, a plataforma parece também ter surgido antes do tempo.
“Como toda a gente, estou estupefacto com a rapidez com que isto apareceu. Não estava, de todo, no meu cartão de bingo para este ano”, afirma Adam Dorr, diretor de investigação do think tank RethinkX, que defende que a IA poderá substituir grande parte do trabalho humano até 2045, alerta para os riscos.
“Está a abrir-se aqui uma verdadeira caixa de Pandora, e as capacidades estão a evoluir mais depressa do que a nossa capacidade de regular”, afirma, imaginando cenários em que agentes maliciosos fragmentam projetos prejudiciais em pequenas tarefas distribuídas por humanos que desconhecem o objetivo final.
Kay Firth-Butterfield, antiga responsável pela inteligência artificial no Fórum Económico Mundial, levanta outra questão: a responsabilidade legal.
Na maioria dos países não existe legislação que proteja humanos do uso da IA. Se te magoares durante o trabalho, estás sozinho.
Há ainda a questão da dignidade. Um anúncio recente que pagava dez dólares por um vídeo de uma mão humana, teve 7578 candidatos a concorrer.
“É um pouco desumanizante”, diz Adam Dorr. Será esta a versão do “Open to Work” do LinkedIn, agora dirigida a uma máquina?
O verdadeiro negócio está escondido?
A revista Wired alerta ainda que podemos estar distraídos daquele que poderá ser o verdadeiro negócio para além das tarefas físicas, o RentAHuman pode estar a desbloquear uma coisa mais valiosa: dados de treino.
Vídeos de mãos, imagens de ruas e interações físicas no mundo real são exatamente o tipo de informação que os modelos precisam para aprender a navegar fora do ecrã.
“É genuinamente assustador perceber quantos conjuntos de dados únicos desbloqueámos”, admite Liteplo.
Depois de uma viagem a São Francisco para angariar investimento, a equipa está agora a contratar um assistente humano através da própria plataforma, com um salário entre 200 e 400 mil dólares anuais. Os requisitos do anúncio incluem ter um “problema de higiene pessoal desagradável”, “ver anime de forma compulsiva” e “ser autista”.
No meio da polémica, Liteplo e Tani defendem uma leitura mais otimista. O RentAHuman não é, dizem, um sinal de fraqueza humana, mas de valor.
“Seria fantástico ter um chefe IA que não gritasse nem manipulasse. O Claude como chefe é o tipo mais simpático do mundo. Preferia-o a muitas pessoas”, defende Patricia Tani.
Já Liteplo aponta para a ideia de que isto prova que os “robôs ainda precisam de nós”, na medida em que as atividades que são desempenhadas por humanos são atividades que tornam os humanos insubstituíveis.
Antes de a IA descolar totalmente, seria bom termos um momento para reconhecer que há muito que os humanos conseguem fazer, e que a IA ainda não consegue, conclui.