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Depois das marmitas, os medicamentos. Connect Robotics testa envio de medicamentos a zonas isoladas

por | 23 de Maio, 2018

Depois das marmitas, os medicamentos. Connect Robotics testa envio de medicamentos a zonas isoladas

Eduardo Mendes frequentava o doutoramento em Engenharia Electrotécnica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e Raphael Stanzani tinha experiência em gestão de cadeias de distribuição. Das duas atividades surgiu a ideia de criar a Connect Robotics, centrada em drones. “Começou a perceber-se que o material estava a ficar mais acessível, mais barato, que as pessoas estavam a começar a ter mais interesse. Era o momento ideal para investir numa coisa comercial”, conta Raphael, cofundador da empresa.

Em setembro de 2015 os trabalhos começaram. E as ideias, que eram muitas, foram sendo afuniladas e chegou-se por fim a um conceito mais concreto. “No começo queríamos fazer um programa que controlasse qualquer tipo de drone, para qualquer coisa que fosse necessária. Mas era uma coisa muito abrangente e não era assim que o mercado ia operar. Então vimos que era melhor escolher uma área que tivesse mais necessidade. Foi aí que nos lembrámos dos transportes”, começa por explicar.

A inspiração, em parte, veio de fora. “Havia aquela oferta da Amazon dos transportes por drone e dizia-se que ia mudar o mercado, que ia tornar tudo muito mais rápido. Vimos que era uma área muito interessante que juntava o nosso background e foi assim que escolhemos”.

"Mover coisas do ponto A para o B” é o objetivo da empresa. Mas não são umas coisas quaisquer. São, maioritariamente, bens que podem mudar a vida das pessoas que, por algum motivo, se encontram mais isoladas.

No início, experimentaram levar comida a idosos em aldeias quase desertas. O teste foi feito em Penela, no distrito de Coimbra, em parceria com a Santa Casa da Misericórdia, mas ficou por ali. “Um dos primeiros casos foi o transporte da marmita. Era uma situação interessante. Mas os alimentos são produtos perecíveis, têm um período de vida curto e tem de ser tudo feito o mais rápido possível”, explica. Mas existem outras questões em jogo, principalmente a nível de “regulamentação complexa”. Por isso, para já, ainda não é possível continuar a entregar comida com drones.

Todavia, há outras formas de atuar na vida das pessoas. “Um dos setores que tem mesmo uma necessidade urgente é o da saúde. Por exemplo, há farmácias que querem atender clientes em zonas rurais, onde se demora a chegar. O problema da distribuição de medicamentos nas zonas rurais é mesmo sério porque é insustentável que uma farmácia se mantenha numa zona em que a população está a diminuir. É também uma preocupação do próprio Infarmed”, começa por dizer. “Mas os drones também podem ser usados para hospitais e laboratórios de análises clínicas, que têm de transportar amostras de sangue ou amostras biológicas do hospital até ao laboratório”, diz Raphael. “Já temos contacto com uma farmácia e estamos a desenvolver um projeto conjunto com a Fundação Champalimaud. Fizemos uma demonstração recentemente e estamos também em contacto com mais dois hospitais”.

Para proceder a transporte de algo basta aceder ao site e agendar uma reunião. “Temos de saber o que a pessoa precisa. Temos de ver de onde o drone pode descolar, o que é preciso transportar, se é uma zona perto de aeroporto. De seguida, preparamos um pedido de autorização para a ANAC [Autoridade Nacional de Aviação Civil] , para que possa voar legalmente. Depois é montar os equipamentos e começar os testes."

Os drones, fornecidos pela empresa, conseguem transportar cerca de 2 kg de carga. Mas, dada a especificidade do que têm transportado, há pormenores a ter em atenção. “É preciso adicionar no drone um contentor que é feito para o transporte de medicamentos. Há uma série de regras tanto para medicamentos como para amostras de sangue. Os medicamentos têm controlo de temperatura e de humidade, há o registo desses fatores ao longo do transporte. Para as amostras de sangue e material biológico existe uma regulamentação: há um conjunto de invólucros que o contentor deve ter para garantir que chega tudo sem transbordar e sem contaminar nada. É muito complexo, existem malas com essa regulamentação e temos de adaptar aos drones. Para já é essa solução, mas queremos desenvolver um contentor específico para estas coisas”, refere Raphael Stanzani.

Quanto às distâncias, de momento os transportes só podem ser feitos num raio de 5 km. “Com isto dos contentores, e não tendo ainda a aerodinâmica ideal, o drone faz uma viagem de 10 km no total, 5 km para ir e 5 km para voltar”.

Contudo, o cofundador explica que é uma limitação da própria tecnologia. “É o que as baterias aguentam hoje em dia. Dobrar a capacidade das baterias também não significa aumentar o tempo de voo, porque as baterias são a parte mais pesada do equipamento. Estamos a estudar com parceiros o desenvolvimento de drones que possam voar como aviões mas que pousam e descolam verticalmente. O voo horizontal vai depois permitir que se chegue mais longe, em vez de alcançar 5 km de raio pode chegar a 50 km de raio”. E este é o sonho: chegar mais longe, a mais pessoas, em todas as zonas mas especialmente onde existem mais carências.