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Como será a escola em 2050? Projeto da Fundação Santander traça quatro cenários

por Marta Amaral | 14 de Maio, 2026

A Fundação Santander apresentou esta quinta-feira a fase final do projeto “Horizontes da Educação”, desenvolvido em parceria com a Universia, no Técnico Innovation Center.

A iniciativa reúne experiências imersivas, mesas interativas e realidade virtual (VR) para discutir como poderá ser o ensino em Portugal até 2050.

O objetivo, segundo a organização, é “tornar o futuro tangível, não apenas legível”.

Durante dois dias, representantes do setor da educação, académicos, professores e líderes institucionais participam em debates e experiências digitais centradas numa pergunta de partida: “E se tivéssemos de reinventar a educação, não para o mundo de ontem, mas para o mundo que rapidamente se aproxima?”

O destino final: uma “Carta pelo Futuro da Educação”, um documento coletivo com 10 compromissos assinados pelos participantes. Segundo os responsáveis pelo projeto, a carta não pretende fechar opções políticas, mas definir uma direção comum de longo prazo.

“Não é um relatório”, sublinha Helena, uma agente de inteligência artificial criada para representar uma voz vinda de 2050 e que interagiu com professores e entidades ligadas ao ensino ao longo do evento.

O projeto foi desenvolvido pela consultora The Long Game, responsável pela metodologia, investigação, construção de cenários e conceção do evento. O trabalho incluiu inquéritos, entrevistas e sessões intensivas de análise, das quais resultaram 98 forças de mudança consideradas relevantes para o futuro da educação. Essas tendências foram agrupadas em 10 “constelações estratégicas”.

O futuro da educação não pode ser desenhado por um único ator, uma única geração ou uma única instituição. Exige vozes diferentes a apontar para o mesmo horizonte, refere a organização.

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Como poderá ser a escola em 2050?

Um dos exercícios centrais do projeto consistiu na criação de quatro cenários possíveis para o futuro da educação. Nenhum deles é apresentado como previsão, mas antes como “lógicas contrastantes” que ajudam a pensar riscos, escolhas e prioridades.

Apesar das diferenças, há um elemento comum: Em quase todos os futuros, o professor deixa de ser o transmissor central de conteúdos.

O professor tem de ser um comunicador para além das palavras. A linguagem corporal continua a ser fundamental e muitas vezes é esquecida, defendeu Carlos Pedro Dias, um dos fundadores da SIC e professor na UAL e na Universidade Europeia (IADE).

1. Grande Desaceleração

Neste cenário, a sociedade reage de forma defensiva à inteligência artificial. A escola torna-se mais analógica, controlada e centrada nos exames nacionais, funcionando quase como um “santuário” humano face à tecnologia.

Será que a tecnologia vai ser irreversível? Pode acontecer algo, até negativo, que nos leve a parar. A escola e a universidade podem tornar-se o último recurso onde continuamos a ser humanos, exemplificou Paulo Carvalho, co-fundador da The Long Game.

2. Resiliência Reativa

Aqui, a educação vive em modo de sobrevivência permanente, num contexto marcado por crises climáticas, instabilidade económica e migrações. As escolas adaptam-se continuamente às emergências, mas perdem estabilidade, continuidade e qualidade.

3. Da Dualização à Rede IA

Neste cenário, a aprendizagem fragmenta-se num ecossistema digital distribuído. A escola tradicional perde centralidade e surgem novos atores: tutores de IA, microcredenciais e plataformas globais de aprendizagem.

O diploma deixa de ter o monopólio da validação de competências. Quem possui capital digital adapta-se melhor; os restantes ficam para trás.

4. Estado Orquestrador de Proximidade

O quarto cenário aposta num modelo híbrido: o Estado define padrões nacionais, enquanto municípios e comunidades locais executam políticas educativas com maior autonomia.

A escola funciona como hub comunitário ligado ao território, com sistemas de IA auditáveis ao serviço da personalização da aprendizagem. Segundo os autores do estudo, é o cenário “mais promissor”, mas também o mais exigente de concretizar.

A partir destes cenários criámos uma Carta pelo Futuro da Educação em Portugal. Queremos que estes capítulos se transformem em guias para os próximos anos, apelou Paulo Carvalho.

Os 10 compromissos

A Carta pelo Futuro da Educação assenta em dez capítulos centrais:

  • 1. Aprendizagem centrada na pessoa, com tecnologia ao serviço do ensino humano;
  • 2. Valorização do professor como função estratégica para o futuro;
  • 3. Currículos vivos e orientados para competências do futuro;
  • 4. Promoção do bem-estar, saúde mental e inclusão;
  • 5. Plataformas abertas de aprendizagem ligadas ao território e às comunidades;
  • 6. Sustentabilidade, resiliência e literacia climática;
  • 7. Corresponsabilização entre Estado, instituições, famílias e sociedade civil;
  • 8. Aprendizagem ao longo da vida e novas formas de credenciação;
  • 9. Avaliação adaptada aos diferentes ritmos de aprendizagem;
  • 10. Resposta ao envelhecimento, diversidade cultural e desigualdades regionais.