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Aos 50 anos, transformou uma preocupação familiar numa startup

por Marta Amaral | 18 de Agosto, 2026

A DeepClick combina um dispositivo inteligente com uma Central Humana disponível 24 horas por dia para ajudar pessoas mais velhas a viver em casa com mais segurança e autonomia.

Durante cerca de duas décadas, Miguel Caniça trabalhou como gerente no Banco Santander. Aos 50 anos, decidiu mudar de carreira e criar um projeto com impacto. A inspiração surgiu dentro da própria família.

A mãe vivia sozinha e mantinha uma vida autónoma, mas começou a sofrer quedas depois de colocar duas próteses nos joelhos. Apesar de ter o telemóvel por perto, nem sempre ligava aos filhos: não queria preocupá-los nem incomodá-los.

Só sabíamos que tinha caído quando lhe ligávamos e ela nos contava. Pior eram as situações em que telefonávamos e não atendia. Íamos a casa e encontrávamo-la caída, sem sabermos se estava naquela situação há dez minutos ou há várias horas, conta o fundador e CEO da DeepClick.

A família testou várias soluções, desde botões de pânico a equipamentos instalados em casa. O problema era que todos dependiam de a utilizadora conseguir pedir ajuda. Um smartwatch com deteção automática de quedas também não resolveu a situação: chegava a gerar dez ou 15 falsos alertas num único dia.

Foi a partir desta experiência que Miguel Caniça começou a pensar numa solução que juntasse tecnologia e acompanhamento humano.

Antes de ser um projeto empresarial, a DeepClick foi a tentativa de um filho resolver um problema que tinha em casa.

Tecnologia com resposta humana

A DeepClick desenvolveu um serviço que combina um dispositivo de pulso, uma plataforma tecnológica e uma Central Humana disponível 24 horas por dia. O relógio permite detetar quedas, consultar a localização por GPS e definir perímetros de georreferenciação. Esta funcionalidade pode ser útil para pessoas com Alzheimer, défice cognitivo ou episódios de desorientação, uma vez que é possível gerar um alerta quando o utilizador sai de uma zona previamente definida.

O dispositivo também disponibiliza alguns indicadores biométricos, como a frequência cardíaca, a saturação de oxigénio e a temperatura, e permite enviar mensagens ou lembretes relacionados com a medicação, a hidratação ou condições meteorológicas adversas.

A principal diferença, segundo Miguel Caniça, está no que acontece depois de um alerta.

Quando o utilizador carrega no botão SOS, entra em contacto com uma pessoa da Central Humana. A equipa procura perceber o que aconteceu e encaminha o pedido para a resposta mais adequada, que pode passar pela família, por um cuidador, pelos serviços municipais, por uma farmácia, por uma instituição social ou pelos meios de emergência.

Não queremos que um idoso tenha de saber a quem ligar. Queremos que saiba apenas que não está sozinho.

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Nem todos os pedidos são emergências

O serviço não foi pensado apenas para quedas ou problemas de saúde. Uma pessoa pode pedir ajuda para marcar um transporte, ir a uma consulta, obter medicamentos, compreender uma carta ou resolver uma pequena avaria em casa. Pode também querer falar com um familiar ou simplesmente ouvir uma voz.

Esta dimensão levou a DeepClick a evoluir de uma solução focada na segurança para um conceito mais abrangente de acompanhamento e proximidade.

Durante muito tempo pensei que o problema era tecnológico. Se conseguíssemos detetar uma queda, tínhamos resolvido o problema. Não tínhamos, reconhece o fundador.

A empresa organiza agora a solução em três áreas: proteger a pessoa, cuidar da casa e ligá-la à comunidade. Além da deteção de quedas e da localização, o conceito poderá incluir pequenas reparações domésticas, apoio na toma da medicação, acesso a consultas e transportes e ligação a serviços sociais.

A DeepClick não pretende assegurar diretamente todas estas respostas. A estratégia passa por trabalhar em rede com entidades que já atuam no território.

Se já existe um transporte municipal, uma farmácia parceira, uma IPSS, um serviço de pequenas reparações ou uma equipa de Ação Social, queremos que o cidadão consiga chegar a essa resposta através do meio mais simples possível.

Municípios e instituições como parceiros

A startup encontra-se numa fase de crescimento e implementação da solução. Está a trabalhar sobretudo com municípios, IPSS e organizações ligadas à população sénior, embora o serviço também esteja disponível diretamente para particulares e famílias.

O modelo combina o dispositivo e a plataforma com o acompanhamento contínuo da Central Humana. O objetivo não é apenas colocar relógios no mercado, mas criar redes locais de apoio que ajudem as pessoas mais velhas a permanecer em casa durante mais tempo, com segurança e autonomia.

Para Miguel Caniça, criar a empresa aos 50 anos também mostrou que uma mudança de carreira não implica necessariamente começar do zero.

Levamos connosco 50 anos de experiências, relações, erros e aprendizagens. (…) Quando chega a chamada crise dos 50, não é obrigatório comprar uma mota. Eu criei uma startup.

O projeto já recebeu uma menção honrosa na área da Saúde nos Prémios +, promovidos pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, e foi selecionado para a lista de finalistas do Prémio Nacional de Inovação, em Cascais.