A marca de sapatilhas de lã que virou empresa de inteligência artificial
por Gabriel Lagoa | 20 de Abril, 2026
A Allbirds vendeu a marca de calçado por 39 milhões e vai reinventar-se como fornecedora de infraestrutura de computação para IA.
Era uma vez uma marca de sapatilhas feitas com lã que conquistou os pés de Barack Obama, Gwyneth Paltrow e Leonardo DiCaprio. Na semana passada, a Allbirds anunciou que está a sair do negócio do calçado para entrar no mundo da inteligência artificial. As ações dispararam mais de 580% num único dia.
A Allbirds foi fundada em 2015 por Tim Brown, ex-futebolista neozelandês, e pelo empresário Joey Zwillinger. A aposta passou por sapatilhas minimalistas, feitas com materiais sustentáveis, para quem trabalha em frente ao computador e prefere não pensar muito no que calça. O modelo resultou. A empresa chegou a estar avaliada em mais de quatro mil milhões de dólares quando entrou em bolsa, em 2021.
Só que o entusiasmo durou pouco. As vendas abrandaram, as lojas físicas foram encerrando uma a uma, com a última nos Estados Unidos a fechar em janeiro deste ano, e as ações afundaram mais de 99%, escreve o The Guardian. Antes do anúncio desta semana, cada ação valia cerca de 2,50 dólares. No pico, tinham chegado aos 500, segundo a BBC.
O plano para a recuperação
A solução encontrada pela empresa passa por duas operações em simultâneo. Primeiro, vender a marca Allbirds e todos os ativos de calçado à American Exchange Group, um conglomerado de moda que já tem nomes como Ecko Unltd e Aerosoles no portefólio. O negócio foi fechado por 39 milhões de dólares, de acordo com o Financial Times. A marca vai continuar a existir e a vender produtos, só que já não será gerida pela empresa que a criou.
Segundo, a entidade cotada em bolsa vai reinventar-se sob o nome NewBird AI, com o objetivo declarado de se tornar fornecedora de infraestrutura de computação para inteligência artificial. O plano é comprar unidades de processamento gráfico de alta performance, os chamados GPUs, os chips que alimentam os modelos de IA, e disponibilizá-los a empresas, programadores e organizações de investigação que não conseguem aceder a capacidade de computação suficiente. Para financiar a transição, a empresa assinou um acordo de financiamento de 50 milhões de dólares com um investidor institucional que não identificou, diz a Euronews. Sujeito a aprovação dos acionistas, o negócio deverá ficar fechado nos próximos meses.
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“Meme stock”
A reação dos mercados foi imediata. As ações subiram mais de 580%, embora o valor total da empresa continue a ser mais de 90% inferior ao que era quando entrou em bolsa. Ou seja, uma ação que valia 2,50 dólares passou a rondar os 17 dólares.
Os analistas não ficaram especialmente convencidos. Citada pela BBC, a analista de retalho Hitha Herzog considera que o entusiasmo em torno da Allbirds, “só por incluir IA num comunicado”, a torna claramente uma meme stock, o tipo de ativo cujo valor sobe por força da especulação e das redes sociais, e não por fundamentos económicos sólidos.
A própria empresa reconhece, nos documentos enviados à Securities and Exchange Commission, o regulador financeiro dos EUA, que o novo modelo de negócio “seria menos focado no benefício público da conservação ambiental”.
Por agora, a NewBird AI não tem ainda produto, clientes confirmados nem historial no setor tecnológico. O mercado reagiu com entusiasmo. Os analistas, com ceticismo. E a Allbirds, a marca das sapatilhas de lã, vai continuar a existir, só que noutras mãos.