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A ferramenta de IA que antecipa problemas do coração até 5 anos antes

por Marta Amaral | 17 de Abril, 2026

Cientistas da Universidade de Oxford desenvolveram uma ferramenta de inteligência artificial capaz de prever o risco de insuficiência cardíaca até cinco anos antes de surgirem sintomas.

Como? O sistema analisa exames de TAC cardíaca e deteta alterações subtis na gordura que envolve o coração (sinais de inflamação invisíveis ao olho humano). Com base nesses dados, a IA calcula um nível de risco individual, ajudando os médicos a decidir o acompanhamento e tratamento mais adequados.

  • Os resultados: De acordo com o The Guardian, o modelo foi treinado com dados de mais de 70 mil pacientes do sistema de saúde britânico e alcançou uma precisão de cerca de 86%. Pessoas classificadas como de alto risco têm até 20 vezes mais probabilidade de desenvolver insuficiência cardíaca, com cerca de 25% a serem diagnosticadas no prazo de cinco anos.

Os investigadores defendem que esta tecnologia pode transformar o diagnóstico precoce e permitir intervenções antecipadas, evitando danos graves no coração. A equipa está agora a trabalhar para integrar a ferramenta na prática clínica, incluindo a sua aplicação em exames torácicos mais abrangentes e a obtenção de aprovação regulatória para uso no sistema de saúde.

O que dizem os especialistas?

Em Portugal: A insuficiência cardíaca é uma doença que afeta o coração de 1 em cada 6 portugueses com mais de 50 anos

  • O que acontece? Esta doença faz com que o coração deixe de conseguir bombear normalmente o sangue, e por isso provoca queixas de cansaço e inchaço das pernas. 
  • O que causa? São várias as doenças que podem conduzir a insuficiência cardíaca, sendo as principais a hipertensão e a doença coronária (como o enfarte agudo do miocárdio), mas podem ser problemas das válvulas, doenças genéticas ou até as doenças respiratórias crónicas.

“Nos últimos anos tem-se vindo a descobrir que a obesidade é também um fator que causa insuficiência cardíaca”, acrescenta o cardiologista, Miguel Borges Santos.

  • Porque é importante? Para especialista, este novo exame pode ajudar os médicos a transmitir aos doentes a importância de cumprir as recomendações habituais de estilo de vida saudável. Até há pouco tempo, sabia-se que o excesso de gordura estava associado à insuficiência cardíaca, mas não se sabia exatamente como. Estudos recentes têm revelado que é a inflamação da própria gordura que liberta substâncias que são prejudiciais para o coração.

“Está a ver? A TAC que fez diz que está em risco de ter insuficiência cardíaca. Tem que tomar a medicação para a hipertensão e controlar o peso com alimentação saudável e exercício regular”, exemplifica o médico Miguel Borges Santos.

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  • Podemos implementar no SNS? “Não seria complicado, uma vez que se trata de analisar imagens de TAC que foram feitas com outro intuito, e analisar essas imagens com recurso a inteligência artificial. Como devem ser feitas mais de 20 mil TACs cardíacas anualmente, seria uma ajuda no rastreio de doente em risco. E se a análise se puder fazer também nas TAC torácicas, que são muitas mais, o rastreio será ainda melhor”, alerta o cardiologista.

Não chega… “Num país onde 90% dos casos de insuficiência não estão diagnosticados, e só há meses é que os médicos de família já podem pedir uma análise fundamental no diagnóstico (NTproBNP), há coisas mais prioritárias. Mas imaginemos que este software é gratuito: seria um excelente complemento à informação que as TAC cardíacas ou torácicas habitualmente fornecem”.

Usar inteligência artificial na cardiologia é perigoso? Para o médico cardiologista, não. Pelo contrário, defende que esta tecnologia poderá trazer “enormes ganhos de saúde para a população”. O verdadeiro risco, alerta, não está na dependência da IA, mas na eventual perda de algo essencial: a inteligência humana o bom senso, a experiência clínica, a sabedoria e o espírito crítico.