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A empresa portuguesa que quer manter bancos e hospitais de pé quando a internet falha

por Gabriel Lagoa | 21 de Julho, 2026

Nascida de um problema de entregas no Alentejo durante a pandemia, a Wede criou uma tecnologia que mantém operações críticas a funcionar mesmo sem internet.

Quem nunca ficou sem internet quando menos esperava? Seja a meio de uma chamada de Zoom importante, no momento decisivo de um jogo online, ou simplesmente a tentar carregar uma página enquanto o resto da casa via Netflix. As falhas de internet são comuns e para as empresas podem significar um dia de prejuízos. Basta olhar para a falha da AWS em outubro do ano passado, quando um problema técnico numa das principais infraestruturas da empresa deixou milhares de empresas sem serviço durante várias horas.

Foi precisamente este tipo de fragilidade, ainda que numa escala bem mais pequena, que esteve na origem da Wede. A ideia nasceu durante a pandemia, quando Ricardo Madeira, com formação em IT mas a trabalhar então na área da energia solar, criou uma plataforma de entregas para o Alentejo, região para onde muitas famílias se mudaram nessa altura. Rapidamente percebeu que a internet, ali, não era garantida: havia clientes que não conseguiam fazer pedidos por falta de ligação, e o próprio fundador tinha dificuldade em localizar os estafetas em tempo real. Foi essa limitação que o levou a procurar uma forma de manter o serviço a funcionar mesmo sem acesso à rede, uma ideia que, na altura, lhe disseram não fazer sentido nenhum.

“Essa ideia não faz muito sentido, porque o mundo está a caminhar para o digital e tu estás a agarrar uma coisa do passado”, ouviu Ricardo Madeira dizer, quando partilhou a ideia pela primeira vez. Ainda assim, decidiu avançar. 

Das entregas ao middleware de resiliência

“Estou a meter-me num negócio de tubarões. Apesar de estar no meio rural, estou a competir com a Uber e a Glovo. São tubarões que valem milhões e eu não tenho dinheiro para lá chegar”, pensou Ricardo. Foi esse impasse que o levou a olhar para o problema de outro ângulo. E se o verdadeiro valor de uma solução offline first não estivesse apenas no setor das entregas? A curiosidade levou-o a perceber quanto é que as empresas perdem todos os dias com falhas de conexão à internet. A conclusão, diz, é que se tratam de “números astronómicos”. Estava lançado o problema que haveria de dar origem à Wede.

Na prática, a Wede funciona como um middleware instalado dentro das aplicações dos clientes. É uma camada de software que faz a ponte entre duas aplicações ou sistemas. “O nosso middleware deteta quando não existe internet e reencaminha para outros canais disponíveis”, descreve o fundador. Esses canais alternativos, definidos previamente pelo cliente, incluem satélite, redes GSM através de mensagens SMS estruturadas e, em último recurso, um canal de voz apoiado em inteligência artificial (IA).

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Para evitar duplicações, especialmente sensíveis em operações como transferências bancárias, a plataforma aplica regras próprias de sincronização e prioridade. Operações consideradas críticas, como as ligadas à saúde ou a pagamentos, têm precedência sobre outras, como uma entrega de um produto.

Da banca às petrolíferas

Um dos exemplos dados durante a conversa com o The Next Big Idea foi o de uma transferência bancária feita sem internet: a informação fica guardada localmente nos dispositivos de quem envia e de quem recebe, e é sincronizada assim que a ligação regressa. 

Outro exemplo é o das petrolíferas, cujas plataformas param, em média, 25 horas por mês sempre que há incerteza sobre a causa de uma falha ao longo de um oleoduto. Os responsáveis “não sabem se foi um sensor que falhou, se é um hacker que está a entrar no sistema ou se é de facto alguma coisa física que aconteceu. E o que é que eles fazem? Como são linhas muito grandes, são quilómetros e quilómetros de linhas, vão fechar este setor para evitar problemas”, explica o CEO da Wede. No entanto, se a petrolífera tiver os sensores ligados ao sistema da empresa portuguesa, é possível manter alertas automáticos ativos mesmo sem ligação central.

A tecnologia tem ainda aplicações identificadas em carregadores de veículos elétricos, que por vezes ficam bloqueados por perda de comunicação, em organizações não governamentais que operam em zonas com internet degradada, como África ou o sudoeste asiático, e em setores como a logística, apontada pelo fundador como a vertical que mais pode beneficiar de uma solução destas, já que perde “milhões todos os dias, a nível global”.

Reconhecimento europeu e expansão

A Wede recebeu recentemente luz verde no EIC Accelerator, programa do Horizon Europe que Ricardo Madeira descreve como “a Champions League das empresas de deeptech“. A passagem à segunda fase pode garantir um financiamento a fundo perdido de dois milhões de euros, valor apontado pela equipa como determinante para reforçar as equipas comerciais.

Mais: a empresa prepara a assinatura de um contrato com uma empresa de terminais de pagamento nos Emirados Árabes Unidos e mantém conversas com o Serviço Nacional de Saúde (SNS), além de ter sido convidada a apresentar a tecnologia junto da Embaixada Portuguesa na Arábia Saudita. Apesar do crescimento do interesse, a estrutura da empresa mantém-se reduzida: dois fundadores e dois programadores, sediados na Polónia e na Ucrânia.

Para os próximos cinco anos, a ambição da equipa passa por tornar-se uma referência aconselhada por bancos centrais e serviços nacionais de saúde, alinhada com regulamentações europeias como o DORA e o NIS2, que obrigam bancos, hospitais e outras infraestruturas críticas a garantir que os seus sistemas resistem a falhas e ciberataques. “Queremos ser a empresa que é aconselhada pelos bancos centrais”, “queremos ser o suporte para as ONGs”, remata Ricardo Madeira.

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