“À educação falta praticidade”. Tiago e Diogo criaram uma plataforma para ensinar programação, IA e negócios
por Gabriel Lagoa | 23 de Setembro, 2026
A Forma quer responder ao desfasamento entre o ensino e a velocidade da tecnologia. Criada por Tiago Rodrigues e Diogo Barros, a plataforma chega com cursos de IA, programação, design e negócios.
Propor uma nova cadeira numa universidade portuguesa pode demorar dois anos. Nesse tempo, as ferramentas que se queria ensinar ficam obsoletas, os modelos de inteligência artificial mudam várias vezes e o mercado de trabalho já seguiu em frente. É este descompasso entre a velocidade da indústria tecnológica e a lentidão das instituições de ensino que tem alimentado, há anos, uma lacuna que ninguém em Portugal resolveu de forma satisfatória. Quem o diz é Tiago Rodrigues, que fundou a Forma com o amigo de infância Diogo Barros para tentar fechar exatamente essa lacuna.
A Forma é uma plataforma de aprendizagem digital em programação, design, inteligência artificial e negócios, com lançamento previsto para novembro. A presença confirmada no programa ALPHA da Web Summit 2026, em Lisboa, foi o empurrão para tornar o projeto público antes de estar completo e para que dois fundadores que ainda estavam na licenciatura quando tiveram a ideia percebessem que tinham algo com pernas para andar. O programa distingue startups em fase inicial com elevado potencial de crescimento.
Da pandemia ao produto
Tiago e Diogo atravessaram juntos um período turbulento do ensino em Portugal, os exames nacionais de 2020, em plena pandemia, e saíram com uma convicção: era possível aprender de outra forma. “Eu era um péssimo aluno a matemática, o Diogo também era um péssimo aluno a matemática. Mas vimos que, com liberdade para aprender por nós próprios, as coisas aconteciam de maneira diferente. Acabei por ter 18 no exame. O Diogo tirou 20”, começa por contar Tiago Rodrigues.

Ainda na licenciatura, ele em Engenharia Informática, Diogo em Matemática, criaram a Developh, um estúdio de design e desenvolvimento de produtos digitais. Quatro anos de trabalho com empresas de vários setores deixaram-lhes claro o problema do lado de dentro: “Os postos de trabalho estão a convergir. Antes, tínhamos um web designer, um project manager, um developer e havia uma comunicação muito separada entre os três. Hoje temos um developer que é ao mesmo tempo project manager e web designer. As funções estão todas a fundir-se numa só.”
A Forma nasce dessa leitura, mas também de uma experiência mais pessoal. No ano passado, Tiago foi convidado a ensinar desenvolvimento de videojogos a alunos de 10 anos num colégio internacional de Lisboa. “O que eles aprenderam durante um ano letivo foi exatamente igual ao que eu aprendi durante um ano letivo no mestrado. A compreensão das coisas é diferente, mas em termos práticos converge no mesmo. E foi aí que tive a realização: à educação falta praticidade.”
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Cursos que dizem o que se vai conseguir fazer
A filosofia da plataforma está visível logo nos nomes dos cursos disponíveis na demonstração pública: Um site feito por ti, Esta ideia dá negócio?, IA no trabalho, Como não desenhar um website. O resultado antes da ferramenta. “Nós temos uma linguagem feita de jovens para jovens, mas sem restringir a qualquer idade. Estamos a falar português sem termos técnicos para pessoas que querem aprender tanto do zero como a nível avançado”, explica Tiago. “A parte diferenciadora é os cursos que ainda não existem. Esta semana saiu um novo modelo de inteligência artificial. Nós, nas próximas duas ou três semanas, já teremos um curso dessa tecnologia.”
Esta velocidade é, ao mesmo tempo, a proposta de valor e o principal desafio. Quando se pergunta como é que a Forma ensina competências que podem ficar obsoletas em dois anos, Tiago responde que a “remoção de temas obsoletos e a entrada de novos é uma obrigatoriedade. Nós não podemos prometer inovação e depois, em 2027, continuarmos com os cursos de 2026. Já sabemos que isso não vai acontecer.”

Há também uma resposta ao fenómeno do vibe coding, ou seja, a ideia de que a IA permite a qualquer pessoa criar websites ou apps sem saber programar. “Nós cada vez mais vemos pessoas a entrar no mercado da inteligência artificial sem o conhecimento de base, e não conseguimos distinguir logo o resultado do trabalho de alguém sem formação do de alguém com formação que usa IA para aumentar o que faz. A maneira como queremos ensinar não é obrigar as pessoas a tirar um curso de engenharia de software, mas ensiná-las a usar a IA de forma a que o resultado não pareça o que nós chamamos AI slop, aquele padrão que toda a gente reconhece como gerado por uma máquina.”
Qual o modelo de negócio?
O modelo de negócio assenta em três públicos: consumidores individuais, escolas e empresas. Para os particulares, está previsto um sistema de subscrição, com a possibilidade de adquirir cursos avulsos ou masterclasses individuais. Para as escolas e empresas, o modelo passa por parcerias, algo que Tiago já conhece do terreno: foi formador em escolas como a St. Dominics International School e a St. Julian’s School.
A Forma não pretende, por agora, sair de Portugal. “O nosso foco é formar os portugueses, porque é onde vivemos e onde sabemos a necessidade que existe. A partir do momento em que perdemos o foco no internacional, estamos expostos à política de cada país, ao ritmo de cada país e começamos a servir públicos cada vez mais pequenos”, diz Tiago. Quanto a ambições maiores: “Eu há um mês nem pensava que ia à Web Summit com uma startup no programa ALFA. Não gostava de limitar a resposta.”
A demonstração já está disponível no site da Forma. O lançamento está previsto para 1 de novembro.