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A computação já não está a consumir mais eletricidade (graças à eficiência)

por Marta Amaral | 24 de Março, 2026

Apesar do boom dos centros de dados e da IA, um estudo mostra que o peso energético da tecnologia estabilizou nos últimos anos.

Com a explosão tecnológica das últimas décadas, há um dado que contraria o senso comum: a computação deixou de aumentar o seu peso no consumo global de eletricidade.

O estudo “Long-run electricity consumption in computing” publicado esta terça-feira por investigadores do Instituto Superior Técnico conclui que a eletricidade consumida por equipamentos de computação estabilizou nos últimos anos, representando cerca de 1,8% do consumo mundial desde 2018.

Como?

A explicação está na eficiência. À medida que a capacidade de processamento cresce, a quantidade de energia necessária por cálculo tem diminuído drasticamente. Este ganho resulta de dois fatores principais que ajudaram a conter o consumo relativo de energia:

  • A miniaturização dos chips e a mudança no tipo de dispositivos utilizados.
  • A transição de computadores de secretária para smartphones (significativamente mais eficientes) e a centralização em grandes centros de dados

Os números ajudam a perceber a escala da transformação: entre 1975 e 2022, o consumo de eletricidade da computação aumentou cerca de 10 mil vezes. No mesmo período, a informação processada cresceu cerca de 100 mil milhões de vezes e a eficiência energética cerca de 10 milhões de vezes.

Centros de dados (ainda) não são o problema

Num contexto em que o consumo energético dos centros de dados e da inteligência artificial está no centro do debate, o estudo vem relativizar alguns dos receios mais alarmistas.

Este estudo mostra que, no passado recente, os ganhos de eficiência foram suficientes para controlar o consumo de eletricidade, afirma Ricardo Pinto, um dos autores do estudo.

O investigador sublinha a importância de olhar para a evolução histórica antes de projetar cenários futuros: “Estudar o que aconteceu é essencial para colocar em perspetiva o que se pode realmente esperar”, acrescenta.

O estudo, assinado por Ricardo Pinto, Tiago Domingos e Tânia Sousa (MARETEC / Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa) e Paul Brockway (University of Leeds), foi publicado na revista iScience e analisa, de forma inédita, quase cinco décadas de evolução.

Ao contrário da maioria dos trabalhos anteriores, que se focaram em períodos curtos ou em tipos específicos de equipamentos, esta investigação cobre todo o ecossistema da computação entre 1975 e 2022.

“Graças a esta abrangência, foi possível detetar de forma credível este fenómeno de estabilização”, explica Tiago Domingos.

O que esperar daqui para a frente?

Apesar de algumas previsões apontarem para um aumento significativo do consumo energético das tecnologias digitais, os autores sugerem que, pelo menos no curto prazo, essas projeções podem estar sobrestimadas.

Ainda assim, o equilíbrio dependerá de um fator crítico: se os ganhos de eficiência vão continuar a acompanhar o ritmo de crescimento da computação, agora impulsionado por inteligência artificial, cloud e automação.

“Este estudo insere-se numa linha de investigação que analisa, numa perspetiva histórica de longo prazo, a evolução do uso de energia e da eficiência energética na sociedade”, conclui Tânia Sousa.

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