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A app de diário portuguesa que analisa os padrões de quem escreve

por Gabriel Lagoa | 7 de Setembro, 2026

Nelson Silva passou três anos a construir sozinho uma app de diário que transforma o que escreves em padrões sobre ti próprio.

Escrever um diário é um dos hábitos mais antigos que existem. Há registos de diários pessoais desde a antiguidade, e a literatura está cheia de exemplos de pessoas que encontraram nas páginas escritas uma forma de se perceber melhor. O problema, no entanto, é sempre o mesmo: escrevemos, acumulamos, e nunca mais relemos. As palavras ficam guardadas e os padrões que as atravessam ficam esquecidos.

Foi precisamente esse problema que levou Nelson Silva, programador no Porto, a criar a Auramenta, uma app de diário pessoal, por enquanto apenas em iOS, lançada em agosto deste ano. Mas a origem da ideia é mais pessoal do que técnica. “Isto começou em 2023, quando a vida estava assim um bocado barulhenta”, conta. “Eu tenho esclerose múltipla, portanto o meu sistema imunitário vai muito abaixo por causa da medicação. Acabei por apanhar muita coisa ao mesmo tempo a nível de saúde e estava tudo demasiado barulhento. Por isso, precisei de escrever.”

O que começou como uma forma de lidar com o ruído acabou por se transformar num projeto de três anos, construído a solo, em noites e fins de semana, até julho deste ano, quando Nelson passou a dedicar-se à Auramenta a tempo inteiro.

Sem IA, mas com regras

A pergunta que qualquer pessoa fará ao ouvir falar de uma app que “lê” o que escrevemos e identifica padrões é inevitável: isto usa inteligência artificial? A resposta de Nelson é direta. “Não há inteligência artificial na Auramenta. O que existe é PNL — e não confundir aqui com programação neurolinguística. Basicamente é a leitura pelo que tu escreves.”

O motor que processa o texto funciona através de regras escritas manualmente, palavra a palavra, com atenção às nuances de cada língua. A app suporta oito idiomas, cada um com o seu próprio motor. E o detalhe de separar o português de Portugal do português do Brasil não é cosmético: “Português de Portugal não é igual ao português do Brasil. Portanto, tem regras específicas que eu fui criando e vou criando diariamente.”

A interface da Auramenta

O sistema não pega nas palavras de forma isolada. “Se eu escrever ‘eu não estou triste’, eu não vou pegar na palavra ‘triste’. Eu pego sempre nas últimas três palavras antes da atual. Portanto, não é um dia ou um momento de tristeza, é apenas uma reflexão de não estares triste.”

Os dados ficam no telemóvel

Numa era em que praticamente todos os serviços digitais implicam criar uma conta, aceitar termos e condições e confiar os dados a um servidor algures, a Auramenta funciona ao contrário. Não há conta para criar, não há servidor externo, e o texto nunca sai do telemóvel. “É totalmente encriptado na base de dados. Mesmo com a Auramenta Plus, que é a subscrição que permite enviar para o iCloud, antes de ser enviado é novamente encriptado. Não existem contas, não existe password, não existe nada. Funciona offline.”

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A decisão não foi apenas técnica. “São os meus dados privados, eu quero ter a segurança e confiança”, diz Nelson, que sublinha que a app também tem em conta situações de crise: se alguém escrever algo preocupante, a aplicação partilha números de linhas de apoio do país onde o utilizador se encontra.

Sem streaks, sem obrigações

Outro ponto de diferença face a apps semelhantes é a ausência de streaks, as sequências de dias consecutivos que muitas aplicações usam para incentivar o uso diário e que facilmente se tornam uma fonte de culpa. “Eu nunca acreditei que o journaling fosse algo de obrigação. É mais quando a pessoa sente. Portanto, eu não quero que as pessoas se sintam mal com ‘ok, não cumpri, perdi o meu streak‘. Tu tens de escrever quando tu sentes que tens de escrever.”

A app é gratuita, com um plano opcional de 2,99 euros por mês ou 19,99 euros por ano. É uma ferramenta de autorreflexão e não um dispositivo médico nem um substituto de cuidados profissionais. O próximo passo é o lançamento para Android, previsto para o último trimestre de 2026. “Sempre foi o meu objetivo principal: realmente fazer a diferença e tentar melhorar a vida das pessoas.”