De aliados a rivais: Musk perde processo contra OpenAI
por Marta Amaral | 19 de Maio, 2026
Elon Musk perdeu o processo contra Sam Altman e a OpenAI, depois de um júri concluir que o empresário demorou demasiado tempo a avançar judicialmente com as acusações.
A decisão foi conhecida esta segunda-feira num tribunal de Oakland, na Califórnia. Os jurados ilibaram Sam Altman, Greg Brockman e a OpenAI das acusações apresentadas por Musk, que alegava ter sido enganado relativamente às suas contribuições iniciais para a organização.
- O motivo? O CEO da Tesla defendia que a OpenAI traiu a missão original da organização (criada como entidade sem fins lucrativos) ao transformar-se numa empresa focada em gerar lucro.
- A conclusão: O júri concluiu que Musk tinha conhecimento dos factos alegados no processo pelo menos desde 2021, mas esperou demasiado tempo para avançar judicialmente, ultrapassando os prazos legais previstos.
Os jurados ilibaram também a Microsoft da acusação de “auxílio e cumplicidade” na alegada violação das regras aplicáveis a organizações sem fins lucrativos, igualmente devido ao atraso de Musk em apresentar o caso.
- O veredicto: representa uma vitória importante para Altman e para a OpenAI, numa altura em que a empresa enfrenta pressão crescente sobre a sua estrutura, financiamento e relação com investidores.
À saída do tribunal, o principal advogado de defesa da OpenAI, William Savitt, afirmou que o processo “foi uma tentativa hipócrita de sabotar um concorrente”. O advogado acrescentou ainda que a empresa está a preparar contra-acusações, alegando que Musk abusou do sistema judicial ao processar a OpenAI.
- O caso fica por aqui? Não. O advogado de Musk, Marc Toberoff, disse aos jornalistas que o empresário pretende recorrer da decisão. Toberoff considerou “uma tragédia” que a OpenAI tenha conseguido evitar consequências depois de ter desenvolvido uma operação lucrativa apesar de ter sido fundada como organização sem fins lucrativos.
O processo surge numa altura em que Musk intensificou a rivalidade com a OpenAI através da xAI, empresa criada para competir diretamente no desenvolvimento de modelos avançados de inteligência artificial.
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Como Elon Musk e Sam Altman passaram de aliados a rivais
A parceria começou há 11 anos, em maio de 2015, quando Altman enviou um email a Musk a perguntar se seria boa ideia a Y Combinator (aceleradora onde era presidente) lançar um “Projeto Manhattan para a IA”. Musk respondeu que a ideia “merecia provavelmente uma conversa”.
Meses depois, Musk cofundou a OpenAI com Altman, Greg Brockman e outros investigadores, concebendo-a como uma organização sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento de inteligência artificial para benefício da humanidade.
O objetivo era criar um “contrapoder” à DeepMind da Google, vista pelos fundadores como um risco caso a inteligência artificial geral viesse a ser controlada por uma empresa privada.
- Os primeiros atritos começaram em 2017: De acordo com documentos revelados em tribunal, Musk exigiu que Altman e os restantes cofundadores elaborassem listas detalhadas de funcionários e das suas contribuições, defendendo o afastamento daqueles que não correspondessem às expectativas.
- Quem devia liderar a empresa? Ao mesmo tempo, a OpenAI enfrentava dificuldades financeiras crescentes. O desenvolvimento de modelos de IA exigia cada vez mais capacidade computacional e financiamento, levando os líderes da organização a discutir a criação de uma estrutura com fins lucrativos. A discussão sobre quem controlaria essa futura entidade tornou-se um dos principais focos de tensão.
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Entre a promessa de proteger a humanidade e a corrida ao lucro, uma investigação expõe tensões profundas na liderança da OpenAI.
Segundo os documentos do processo, Musk procurava garantir até 90% de participação numa eventual empresa lucrativa ligada à OpenAI. Altman e os restantes cofundadores recusaram a proposta, argumentando que nenhuma pessoa deveria ter controlo unilateral sobre uma tecnologia potencialmente mais inteligente do que os seres humanos.
Um dos episódios mais tensos aconteceu em junho de 2017, quando a Tesla contratou Andrej Karpathy, investigador de IA da OpenAI. Em mensagens trocadas entre Musk e colaboradores, incluindo Shivon Zilis e Sam Teller, a equipa do empresário celebrou a contratação.
Mais tarde, Greg Brockman recordou em tribunal que Musk apresentou aos cofundadores da OpenAI “um pedido de desculpas e uma confissão”.
Apesar dos conflitos internos, a tecnologia da OpenAI continuava a evoluir rapidamente. Em agosto de 2017, os sistemas da empresa derrotaram alguns dos melhores jogadores mundiais do videojogo Dota 2, um feito amplamente celebrado por Musk no Twitter.
“A OpenAI foi a primeira a derrotar os melhores jogadores do mundo em eSports competitivos”, escreveu o empresário. “Muito mais complexo do que jogos tradicionais como xadrez e Go.”
A relação continuou a deteriorar-se: Um mês depois, Musk escreveu a Altman e aos restantes líderes da OpenAI a dizer que já tinha “aguentado o suficiente”. Caso não pudesse assumir o controlo da organização, estaria preparado para abandonar o projeto.
“Ou fazem algo por vossa conta ou continuam com a OpenAI como organização sem fins lucrativos”, escreveu Musk num email divulgado em tribunal. “Não vou continuar a financiar a OpenAI até assumirem um compromisso firme, ou então sou apenas um idiota a financiar gratuitamente a criação de uma startup.”
Meses mais tarde, Musk acabaria por abandonar a OpenAI. Anos depois, a disputa transformou-se numa batalha judicial entre dois dos nomes mais influentes da indústria da inteligência artificial.